Querela datada

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Acaba de ser reeditado um livro que, nos idos de 1989, foi um clímax da velha guerra entre “sociológicos” da USP e “formalistas” da PUC.
É “O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Mattos”, de Haroldo de Campos (1929-2003).
No texto, Haroldo critica a exclusão de Gregório de Mattos -e do Barroco como um todo- do processo de constituição do “sistema literário nacional”, tal como postulado pela “Formação da Literatura Brasileira” (1959), de Antonio Candido.
O núcleo da crítica incide sobre o que considera o “modelo semiológico” estreito e a “perspectiva histórica linear” da “Formação”.
Em relação ao primeiro ponto, Haroldo observa que o esquema autor-obra-público de Candido privilegia a função “emotiva” dos textos, tendo em vista o célebre esquema de Roman Jakobson.
Ou seja, Candido valorizaria os termos comunicativos e expressivos das obras, quando o “sujeito lírico” manifesta a sua individualidade ou representa certa faceta da realidade vivida. O resultado é um cânone nacional “romântico imbuído de aspirações classicizantes”.
Sobre o segundo aspecto, Haroldo observa que a perspectiva histórica da “Formação” é linear, integrativa e teleológica, pois postula uma origem “simples”, datada “convencionalmente” (1750), que se torna complexa até atingir o ponto pleno.
Tal é o momento em que o espírito da literatura nacional se conhece a si mesmo, como história consciente, dotada de autonomia e continuidade de tradição.
Para Haroldo, a origem da literatura brasileira não é simples, mas “vertiginosa”. Com Gregório e o barroco, “já “nasceu” adulta, formada, no plano dos valores estéticos, falando o código mais elaborado da época”.
Propõe então uma história “constelar”, “inconclusa”, com destaques para seus “momentos de ruptura e transgressão”, e não de continuidade e formação.
Poderiam então ser sincronizados, no eixo do barroco, autores como Gregório, Euclydes, Cabral, Rosa, e naturalmente a vanguarda concretista, além de artistas como Glauber e Caetano.

ESCOLHA DIFÍCIL
Tudo certo, não fosse contradição (num texto que critica o romantismo nacionalista de Candido): a reinvidicação do barroco como “nosso” e de Gregório como precursor da “comicidade “malandra” em nossa literatura” ou como “primeiro antropófago experimental da nossa poesia”.
Entre excluir o barroco do estudo sob a alegação de estar ausente da formação nacional, e incluí-lo, como antecipação do nacional, qual é pior? Difícil e vã escolha.
Irônico é que, após descontruir a “Formação”, o Gregório “original e revolucionário” de Haroldo é, por assim dizer, pego no contrapé por um autor que nada tinha a ver com o “culto reverencial” a Candido.
Em “A Sátira e o Engenho”, também de 1989, João Adolfo Hansen contestou o sentido “carnavalizante” da sátira de Gregório, mostrando o fundo conservador de suas tópicas, no que foi seguido também por Alfredo Bosi, em ensaio de 1992.
Hansen mostrou ainda que os poemas de Gregório eram atribuições apócrifas, de modo que o seu nome deveria ser entendido mais como uma “etiqueta” de autoridade associada ao gênero da sátira do que como uma autoria original e única.
Tais pontos, é forçoso admitir, lançaram um “coup de vieux” no debate anterior, de modo que, ao contrário do que diz Affonso Ávila, em seu prefácio à nova edição, todo o assunto, hoje, tem de ser reavaliado em bases tão diversas do “Sequestro” como da “Formação”.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Unicamp