Égua! É de beber, camará.


Aquiles sentiu a cabeça pesada, e a camisa básica de sempre estava ensopada de suor depois de um dia carregando caixas de legumes nas costas. Saiu do mercadinho aos tropeços, descendo as vielas do morro do dendê até alcançar a avenida paranapuan lá embaixo. Era um final de dia normal como todos os outros, um calor de fritar ovo no asfalto e as ruas apinhadas de gente, que naquela hora estavam voltando do trabalho. Não demorou muito e o ônibus chegou. Aquiles respirou fundo para suportar seus vinte minutinhos de aperto, já que a condução chegava a seu ponto lotada, e ficar pressionado naquela lata de sardinha sobre rodas não era agradável para ninguém.

Desceu da condução e deu de cara com a vitrine, um único vidro que de tão limpo fazia parecer que a frente da loja era as estantes por trás dele, feitas em madeira escurecida, e que guardavam alguns queijos e conservas. O fato é que quase todos os espaços ali eram ocupados por uma variedade enorme de cervejas e vinhos de todas as formas, cores e tamanhos. Mas entre todas elas, seus olhos foram capturados por uma em especial: sem nenhum rótulo, a garrafa estreita, arrolhada e com o líquido amarelo âmbar , parecia embuída de uma energia diferente, atraindo seus olhos e seu corpo na direção da vitrine até que o vidro embaçasse com sua respiração, de tão próximo.

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Repentinamente seu devaneio foi interrompido pelo sino da igreja, e lembrou do horário, seis da tarde. Não tinha tempo para entrar na lojinha, então jogou o cabelo escuro para trás e acelerou o passo, o rosto corando sob o sol até chegar à escola técnica. Estava ali por pura falta de opções: queria um emprego melhor e não conseguia, então precisava estudar, se aperfeiçoar. Tentou o segundo grau diversas vezes, mas abandonava sempre, por precisar de dinheiro. Enfim… Dessa vez daria certo, porque era um curso dinâmico, as pessoas falando o tempo inteiro, empurradas pela professora ultra motivadora. Então, sem que Aquiles no mínimo desconfiasse, a matéria do dia virou conversa e cada aluno começou a explicar que faculdade queria cursar e em que área. Pensou na garrafa que tinha visto antes da aula, e se perguntou se ela ainda estaria lá a sua espera, olhando para ele de volta, destoando das garrafas de vinho e cerveja que a cercavam, logo ali, atrás da vidraça daquele barzinho esquisito que ninguém dava bola.

— Deve valer dias de trabalho suado, — Martirizou-se.
Enquanto isso as pessoas se gabavam de suas respectivas vidas, das carreiras que almejavam, de suas rotinas de estudo. Planejavam ser engenheiros, advogados, médicos. Como ter ambições, se mal conseguia tempo para uma cervejinha e seu pouco dinheiro era para comer? Não se imaginava bancando a própria faculdade, mas por incrível que pareça, se imaginava saindo daquela aula chata e indo até o barzinho procurar a garrafa, mas a responsabilidade falou mais alto e escolheu permanecer. As pessoas foram dando seus depoimentos, sempre muito positivos, uma espécie de pré-timeline do facebook. Chegou a vez de Aquiles, que inventou uma coisa qualquer, enquanto gaguejava envergonhado…

Saiu da aula e decidiu que não chegaria em casa humilhado. Não subiria as escadarias da favela para se esconder sob o lençol e chorar. Caminhou resoluto e, entrando no tal bar, apontou a garrafa para o atendente, que postou um cálice diante de seus olhos e o encheu com um sorriso de satisfação. Naquele momento, viu seu nome escrito à caneta no canto do rótulo.

— Boa noite, tudo bem? Que bebida é essa?

— Jambu, camará. É cachaça. Ninguém nunca pediu dessa aqui, mas dizem muita coisa. Se deixar cinco segundinhos na boca, vai mudar seu futuro.

— Entendi. Ela veio de algum fornecedor ou você comprou pessoalmente?

— Ah, um senhor de idade me deu a garrafa, foi durante minhas férias em Belém do Pará.

Aquiles virou o cálice e segurou o líquido na boca durante os tais cinco segundos. Sentiu a língua e o céu da boca dormentes, a sensação salgada, o calor descendo em forma de líquido pela garganta.

***

Hoje.

Aquiles olha seu diploma de nível superior enquadrado na parede e nota que ele parece mero pedaço de papel encapsulado no vidro. Impermeável. Mas sente orgulho. No peito bate a certeza de que o quadro só existe por causa daquele dia. Sente o formigamento de leve na língua antes mesmo que os olhos desçam do quadro até a estante abaixo, onde a garrafa descansa vazia. Não sabia que a virada do copo seria a mesma da vida.