Pacto com o diabo de ferro

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A culpa era minha. Eu alternava entre pentear o cabelo para trás, usando um pequeno pente de marfim que trazia na bolsa, e me surpreender com meu reflexo nos espelhos de bronze polido espalhados pela sala. Não me importava a chegada gradual daquelas autoridades. Eu trocaria todos por ela, que ia odiar o vestido de tafetá, que vestida no macacão de brim de sempre, brincava: – Você fica perfeita coberta de graxa. Eu queria que Magdalena estivesse viva.

A meu lado estava Francisco XVIII, o Rei, de pé com as duas mãos mecânicas sobre a cabeceira da mesa, preocupado em estimar os valores dos afrescos nas paredes para os ouvidos atentos de Alencastro, o negociante sentado na outra ponta, provavelmente pelo tamanho exagerado do chapéu. A Nínfica Madhumati estava do meu lado esquerdo e diante dela seu rival, o Magista Dr. Aegyr, que a fuzilava com seu estranho olho de vidro enquanto sorvia um longo e curvo cachimbo, jogando a fumaça para o alto em seguida. Em outra ocasião eu acharia engraçado que aqueles dois tivessem atravessado todo um continente para brigarem ali naquela sala, mas eu só imaginava Magdalena sentada na cadeira vazia diante de mim. Juntas outra vez.

Os motores de Zepellin do lado de fora anunciaram a chegada daquele que completaria a mesa, o que fez o Rei deixar amenidades de lado e tomar a palavra, as engrenagens de suas mãos empurrando o corpo com o som metálico característico, enquanto os presentes se aprumavam, e sua voz — cansada, reverberou pela sala.

– A nossa cidade está em crise, a arrecadação está em baixa. Os barões não estão amigáveis, e um empréstimo se torna inviável. Bem… Um barão propôs que sua ferrovia atravessasse a cidade. Com certeza isso atrairia investimentos, e sairíamos dessa em um piscar de olhos.
Bem… Queira se apresentar senhor…

A porta se abriu e a mesa foi apresentada, antes de qualquer palavra, ao sorriso entredentes de Ko-rinn, o terrível.  Fixou os olhos por um instante no bracelete que ela tinha me dado: – um toque de elegância, – flertava. Os sussurros dele em minha cabeça interromperam a lembrança. Será que conseguiu? O lagarto não sabia que Magdalena tinha prometido ficar na oficina, estudando. Que o trato era ela cuidar de mim, e eu da cidade. A culpa era só minha. Ele responderia agora, diante daquela mesa cheia de inimigos?  Estava elegantemente trajado como os reptilianos costumam fazer, ainda mais imponente do que os boatos que cercavam suas aparições. Alguns dos presentes se mexiam em suas cadeiras, deixando claro que a presença era incômoda.

-Venho aqui em missão de paz, meus caros, — Sibilou, deixando escapar a língua fendida. Proponho algo bom para todos. Sei que ainda estão acuados pelo que ocorreu com sua associada, mas não precisamos de mais hostilidade. — A entrada de meu grupo em sua cidade traria não somente investimentos, mas  prestígio e algumas pessoas influentes para  negociar.

Alencastro, que até antes da chegada de Ko-rinn provavelmente se achava o mais perspicaz na sala, ajeitou o monóculo em seu rosto antes de se levantar,  nitidamente insatisfeito.

-Vossa majestade, carros amigos… Crreio que muitos aqui devem saber de minhas não tão cordiais relações com este senhor. No entanto sinto-me no dever de alertar que não se trata de um grupo de burrocratas que acendem charrutos com notas de 500 réis enquanto assistem emprregados estenderrem trrilhos sobre dormentes. É um seita, uma espécie de doença que toma de assalto não só os negócios nas cidades, mas também a vida social, noturna e tudo o que possa gerrar lucro ou prestígio de alguma forma.

Madhumati era jovem e bela demais, olhos amendoados e grandes cachos que eram contidos por um lenço multicolorido. A participação de nínficas como ela em reuniões assim era normalmente considerado como ofensa para políticos do calibre de Aegyr ou para homens de poder como Ko-rinn e Alencastro, mas ela possuía a energia feérica, além de coragem para erguer-se e se impor diante daqueles senhores orgulhosos. Ela se levantou, o que fez Alencastro parar de falar. Era observada atentamente pelo Rei, que mostrou certo desconforto com a interrupção da ninfa.

– Senhores… Creio que nossa vinda não tenha sido para discutir boatos e mitos tolos sobre a “Companhia Ko-rinn de navegação a vapor” ou… Aquela pessoa… – Disse, olhando para mim. A questão é a crise da cidade e os meios de se resolvê-la, e ter alguém disposto a ajudar nesse momento é oportuno. – Madhumati sentou-se e viu Ko-rrin abrir um sorriso macabro, que fez a mulher gelar dos pés à cabeça. Depois disso Aegyr falou pausadamente, sem se levantar.

– Ainda que Monsieur Alencastro acredite mesmo no que diz, e apesar das palavras duras de nossa bela nínfica… Aquela pessoa, Madhumati? É Magdalena o nome! Porque tem medo? Eu lembro dela dizer que não construiria mais nada para salvar nossa pele. Correto? Disse, o olho de vidro faiscando em minha direção. Permitam ao homem que tenha sua chance, mas sem deixar que escape aos  olhos da fiscalização. O ponto é: o que faremos em caso de problemas? O nome dito, assim, de maneira leviana, tinha um efeito devastador. Alencastro ainda estava de pé, e bateu na mesa, indignado.

-Os aliados desse… Ser… Provavelmente estar circundando esta cidade como urrubus sobre carniça. E, com o perdão da palavra, a mulher de que tanto falam está morta! Eu amo esta cidade, e crreio que a vinda desse grupo aumentarrá a violência. Sim! Eu estou falando de máfia! Clarro, vão confrrontar as guildas de ladrões e a guarda real não vai prrecisar gastar uma bala, mas a que custo? A cidade será tomada.

Todos dirigiam seus olhos para mim, enquanto eu recebia a confirmação de Ko-rinn, que fazia sinal de positivo com a cabeça. Com o coração batendo acelerado, comecei a falar. Minha voz ia ganhando volume à medida que eu falava.

-Não precisamos comprometer a cidade, ainda assim acho que Ko-rrin merece um voto de confiança. Isso porque caso haja qualquer problema, Aegyr… A porta dupla se abriu e Magdalena estava ali, não mais em carne e osso, mas em aço maciço e engrenagens.

A culpa era minha.