Foi Natural

Estava pela primeira vez acompanhando meus irmãos mais velhos naquelas tardes onde andávamos a pé, jogávamos futebol sábado de manhã e ficávamos no quarto dos amigos ouvindo as novidades fonográficas (era uma grande diversão). Época dos discos de vinil, pedaços de plástico que colocávamos em um aparelho chamado “tocador de discos” para, acredite: OUVIR MÚSICA! Muitos deles eram de dificílima obtenção e tratados como tesouros. Em termos de comparação, é como se a aquisição de um celular fosse além de mero presente, um motivo para reunir todos os amigos em casa. Vinis eram compartilhados e criavam uma série de ocasiões.

Esse passeio a pé era motivado por um disco específico, e eu não fazia ideia de que esse era o motivo daquela caminhada animada. Eles falavam coisas sobre os “acontecimentos” juvenis de seu grupo de amigos e também sobre músicas que ouviam e gostavam, e meu eu criança (naquele tempo, com 11 anos éramos crianças) simplesmente não entendia, fascinado que estava em acompanhar meus irmãos e incapaz de captar todo o universo dos adolescentes que me cercavam.

O grupo todo estava muito ansioso e, no meio da rua mesmo, saiu o quadradão cinza de um pacote de loja. Lá estava o vinil, o terceiro mais simbólico que eu vi, depois do “Rádio Pirata” do RPM e do “Brothers in Arms” do Dire Straits. Ali eu estava prestes a conhecer a voz e as canções de Renato Russo. Era o terceiro álbum da Legião Urbana, o “Quatro Estações”. Algum tempo depois Renato daria a declaração bombástica: “- Eu sempre gostei de meninos – eu gosto de meninas também -, mas eu gosto de meninos. Como é que não é natural?”, e aquilo foi muito natural, pois Renato o fez de forma natural.