Complexo vira-latas

Bernardo saiu triste do ascensor, deixando os ociosos corredores da gigantesca edificação. A mídia holográfica não dizia, mas não havia empregos no país. Era irônico o fato de que ter sido convocado para um concurso, depois de tanto estudar, não lhe trouxesse dignidade, e sim vergonha e humilhação. Ajustou o terno diante da porta cromada do ascensor e olhou para seus cabelos escuros e desgrenhados: parecia infeliz. O mais grave é que o salário sequer cobria suas despesas básicas, apesar de ele ter passado em uma seleção tão concorrida. 

Photo by Ali Pazani on Pexels.com

Um amigo que foi trabalhar no posto avançado marciano já tinha avisado que não valia a pena juntar dinheiro no exterior, que nessa empreitada acabou como removedor de sedimentos secos nas unidades móveis de terraformação e que, se ele ganhasse um salário mínimo, não valeria a pena se sacrificar a tal ponto fora do planeta. Enfim, sair daquele prédio onde poderosos arrogantes papeavam e os humildes funcionários trabalhavam era uma espécie de prêmio. A seus olhos, parecia melhor ser removedor de sedimento seco, ainda que recebendo pouco, ainda que em terra estrangeira, ainda que sofrendo preconceito. Tinha que fazer algo para salvar o dia. 

Então, como faria um homem comum de séculos atrás, retirou de seu bolso o relógio. Quando criança cansava de ver aquele treco pendurado no pescoço da vovó Alzira, uma coisinha de nada, e se divertia com as diversas explicações que ela inventava quando queriam saber que penduricalho era aquele, um apetrecho antigo que ninguém mais se lembrava a utilidade. Percebendo o interesse do menino, vovó o constituiu herdeiro do segredo, porque na verdade aquele pequeno objeto era um timer de retrogressão, uma tecnologia perdida que atravessou gerações nas mãos de seus antepassados. Com o relógio nas mãos, foi girando timidamente a pequena alavanca para trás, enquanto o ambiente ao redor virava uma pintura difusa. 

Mais cedo, com o tablet translúcido nas mãos, recebido sem qualquer instrução de seu mais novo colega de trabalho, ouviu as palavras ríspidas da pessoa que, a partir desse mesmo dia, seria sua chefe: — Está tudo errado! — Devia estar furiosa porque o trabalho que ela anunciara a outros diretores que seria feito com perfeição não tinha sido executado como queria, deduziu. 

As palavras que a distinta senhora proferiu em seguida soaram tão indecifráveis quanto os gráficos e balancetes que subiam na tela do tablet em suas mãos. Ela certamente não sabia do que se tratava, o que poderia colocar os dois em pé de igualdade. Porém, por incrível que pareça, a lucidez do recém-chegado era ainda maior que a de sua superior: ela sequer sabia se as pessoas às quais declarara a infalibilidade do trabalho se importavam se a tarefa seria ou não entregue a contento. Ainda insatisfeito, deixou o tablet em uma mesa qualquer e girou a alavanca do timer.

Um dia antes, logo após o café, um olhar de relance nos relatórios holográficos, com as projeções da empresa representadas através de colunas que saltavam no ar, deduziu que aquele setor era vital para recuperar as perdas do último mês. Eram nomes e números processados em algum mainframe, um trabalho que poderia ser simples para um funcionário experiente, mas que todos os colegas ao redor visivelmente evitavam. Quando surgiam as perguntas sobre o que deveria ser feito com aquelas informações e estatísticas, a resposta era praticamente a mesma: é difícil, é complicado… O trabalho caiu nas mãos do novato, e agora ele precisava “terminar o serviço”, foi o que disseram. Meneou a cabeça e girou a alavanca duas vezes na mesma direção de antes, cada vez mais contrariado. 

Retornou para um momento relativamente terno, há uma semana, em que era recebido por uma senhora simpática. Apesar de certa idade, ela aproveitava o momento a sós com o calouro para convidá-lo a sair sexta-feira à noite: — Apenas diversão — ela explicava enquanto mostrava uma cartela do que Bernardo achou serem pílulas rejuvenescentes. 

Achou muito oportuno que o ambiente de trabalho fosse despojado e jovial. Sentindo-se à vontade, resolveu mudar de assunto e conversou longamente com ela sobre concursos públicos, e como era uma vitória estar se apresentando. O clima da conversa mudou abruptamente quando perguntou a ela se, trabalhando ali, sobraria algum tempo para estudo. — Aqui a gente trabalha muito, rapaz… Já estou tomando remédio há alguns anos por causa dos problemas aqui no trabalho — ela respondeu com gravidade. A conversa logo acabou, pois ela precisava retornar a seu posto, visto que muitas tarefas dificílimas a aguardavam. Curiosamente, o trabalho, a tensão e os problemas citados pela senhora não se manifestaram durante a primeira manhã de serviço, sozinho no setor até o horário do almoço, quando o primeiro colega chegou.

Finalmente, girou a alavanca até o momento em que aguardava em uma saleta para formalizar sua entrada para a empresa, e foi embora sem olhar para trás: — Pelo menos vou conhecer Marte.

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