Breve aparelho para consumação do bom e pacífico traspassamento

Aos Mistagogos, Lúnaras e Neófitos.
Aos Leigos que forem atraídos pelos mistérios.
A todos os Áditos, templos e lunastérios. Às Crepusculares e Alvorescentes.
A todos os Fiéis que buscam seguir a luz da reverendíssima Luna. 

Ph

Caros irmãos,

Para que lhes sirva de ponto de partida, permito que minhas mãos se ocupem deste ofício. É importante algum parâmetro de fé e regra que não se paute por desígnio ambicioso, no que diz respeito às liturgias mais importantes de nossa fé. Procuro unificar nossos espíritos neste manual com as cinco instruções primordiais, esperando que nos encontremos todos após nossos devidos traspassamentos, nos outros mundos após este, onde a Deusa, sorrindo, nos aguarda.

I. O “Traspassamento” acontecerá preferencialmente na tarde do dia de descanso, o primeiro em que o astro maior deixou de habitar o firmamento por doze horas, permitindo o primeiro ciclo da lua e que, de acordo com nossa tradição, os fez gerar a Deusa. Pois, da mesma maneira que Luna nasce no céu, devemos nascer para os mundos vindouros, para que os nossos continuem a nascer com saúde e prosperidade sob a luz de Luna.

II. O lugar próprio para realizar o traspassamento é o pátio dos Áditos e lunastérios (Primeiro Livro dos Mistérios, Tomo XXIII, Versículo décimo quinto). O traspassamento, de preferência, deve ser realizado em Ádito ou lunastério consagrado aos espíritos do mar que esteja mais próximo da vila ou cidade onde a maioria dos familiares do traspassado vivem. Pois, da mesma maneira que a pequenina Luna vermelha surge por trás de sua mãe Lua para pacificar os espíritos do mar, louvando-os com sua voz, devemos também fazê-lo.

III. O traspassamento é realizado de maneira mais significativa pela imersão em águas tocadas pelos espíritos do mar que consagram o templo; caso a região tenha escassez de água, pode-se proceder como os lunastérios o faziam antes do ocaso, aspergindo-se uma porção de óleo sobre a cabeça do traspassado e pronunciando as seguintes palavras: “Esta será tua coroa, para que, nos outros mundos após este, seu lugar seja honrado” (Primeiro Livro dos Mistérios, Tomo XVII, Versículo primeiro). Pois, da mesma maneira que a Deusa foi coroada no início de sua maturidade, assim o corpo mortal do traspassado deverá ser honrado.

IV. O traspassamento deve ser celebrado de forma solene. É desejável que todos os fiéis da Deusa e familiares do traspassado sejam levados a participar silenciosamente dos rituais. Orientamos que sejam respeitosos os toques de cordas e assovios de flautas, assim como sejam respeitados os devidos trajes cerimoniais. Pois, da mesma maneira que Luna se revestiu de humildade e simplicidade em vida, assim todos os presentes à cerimônia do traspassamento deverão se comportar e trajar.

V. Quando das despedidas finais, o traspassamento deve ser encerrado sob o crepúsculo, por qualquer pessoa que se disponha a fazê‐lo, com lágrimas dignas e silenciosas, devendo, logo em seguida, ser registrado no livro do respectivo Ádito o seu nome e a honra de ter lavado a terra em homenagem à família do traspassado. Pois, da mesma maneira que a Deusa se despedirá e adentrará a terra, escondendo sua face do céu noturno, devemos os restos mortais do traspassado na terra depositar.

Que estas normas para consumação do bom e pacífico traspassamento sejam acolhidas por todos, e que se sintam obrigados a elas. Lembramos que a descendência de quem não cumprir os cinco princípios, direito do traspassado, se recusará a beber de sua mãe na tenra idade e, dessa maneira, não crescerá com a estatura de como todo filho de Luna deve se desenvolver.


Agradeço à sacrossanta Deusa por atender nossas preces ao elaborar este instrumento de graça, e a todos que, de alguma maneira, abençoaram sua confecção, especialmente ao nobre Mistagogo Vieira.


Que a Luz e a sabedoria de Luna nos iluminem, glorificando o mar vermelho dentro de nós, enquanto desbravamos Além-Mar em busca de sua completa salvação.

Segundo dia do Sagrado sexto ciclo, sob o luminar de 7608 depois do ocaso.

Sacerdote Mestre da Companhia Crepuscular da Cidade de Castanheiras, com a observância da sagrada matéria dos testamentos e do ritual de Sete Coroas de N.S. Stiwall Ling.


Mistagogo Estevão de Castro