Como escrevo? Parte II

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Entrevista que dei para o projeto “como eu escrevo” (https://comoeuescrevo.com/gio-gomes), que reúne relatos de professores, escritores e pesquisadores sobre seus hábitos e rotinas de escrita. Acabei descobrindo muito sobre eu mesme.

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Parte 2:

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

A minha escrita geralmente é um desabafo. Sempre escrevo para colocar no papel as coisas incômodas, entende? Alguma coisa que percebi. Por isso às vezes acordo cedo e acabo assistindo alguma série, decido rir de memes no twitter. Acontece casualmente de estar simplesmente “de boa”, plene. Mas a escrita é sempre um “colocar para fora”, é o meu movimento artístico. Ela vem com… não chamo naturalidade, mas ela vem por necessidade. Não faço esforço para escrever, nenhum esforço, mas não posso dizer “com naturalidade”, porque preciso escrever para poder ficar bem, para ser feliz, essa é a meta.

Nesse procedimento de estar o tempo inteiro pensando no que vou escrever eu pesquiso, às vezes faço algumas anotações e mando pra mim mesme por e-mail. No final de tudo preencho os períodos nos quais eu estaria ociose com esse trabalho de fechar os textos, reunir anotações: noites de insônia, saídas mais cedo do trabalho, uma sexta à noite em casa… Por aí.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Raramente passo por períodos de branco. Como falei antes, estou sempre desabafando, a escrita é um desabafo. Eu não produzo como uma explosão criativa. A escrita não é uma inspiração sobrenatural, como se um espírito me possuísse. Muito pelo contrário, ela é um desabafo. Então escrevo porque a gente está vivendo, passando por situações tensas, dificuldades e tal. Os obstáculos estão sempre ai, estão sempre acontecendo. É muito simples, é muito orgânico escrever o tempo inteiro e o desabafo me fazer bem.

Claro que gosto e tento usar e fazer experiências com os esqueminhas estruturais: Aristóteles, jornada do herói, jornada da heroína, salve o gato, kishotenketsu etc. Mas o que consegue descrever meu processo com precisão é essa questão emocional de extravasar através da escrita. É uma coisa viciante, por isso não tenho brancos criativos, por isso estou sempre escrevendo. E mesmo que não esteja escrevendo um conto, eu posso desabafar através de um poema ou uma música… Pode ser até um desenho, uma melodia, no sentido amplo de poesia: arte. Acontece às vezes de faltar tempo, mas gravo áudios de whatsapp com meus pensamentos, e quando surge um tempo livre ouço tudo e transcrevo.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

A escrita para mim não é um projeto, assim, não faz muito sentido pra mim a ideia de projeto, como se eu fosse um arquitete construindo um prédio. Tem mais a ver com provocar emoções, e só vivendo você passa a entender o que é sentir. Escrevo uma escaleta com a mesma sensação, intensidade, de alguém escrevendo um texto qualquer. Quando tenho travas ocasionais, basta revisitar algum filme ou vídeo que me emocione, e acabo parando de ver o vídeo na metade para retomar a escrita. Tenho momentos de “plenitude” nos quais a necessidade de desabafo desaparece, mas eles não são regulares porque sou muito reclamone e chorone.

Agora, gosto de dividir meus textos grandes em pedaços menores. Geralmente, os estruturo assim: se estou escrevendo um capítulo, por exemplo, onde uma ação acontece com meus personagens, então descrevo algo parecido com: “os carinhas vão subir uma ladeira para conversar com um dragão”.

Eu digo:

— legal, nesse capítulo eles vão fazer isso! — Então detalho esse capítulo, sabendo que o outro capítulo será com as consequências dessas ações, entendeu?

A minha escrita é sempre esse ritmo de altos e baixos, acontecimento seguido de desabafo, repetindo-se ciclicamente. E se o texto fica maior é porque priorizo a sequência de eventos, e muitas vezes esse ciclo dá uma desviada, tipo a vida, com suas voltas. Outras vezes os personagens não tem tempo de desabafar e a ação se prolonga. Como falei antes, escrevo a escaleta como quem escreve uma história também, então tenho prazer em sentar e ficar estruturando o enredo porque gosto de pensar em como uma situação macro se desenvolveria, quais atitudes dos personagens são comuns, quais fogem ao padrão. Então coloco essas variações no papel, puxo setas, e no final fica uma coisa muito louca, um fluxograma enorme.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Com relação à estrutura, reviso meu texto milhares de vezes. Se você deixar, continuo revisando pra sempre. Mas assim, quando me sinto minimamente satisfeito com o texto e o enredo faz sentido, está tudo pronto para revisão.

Mas odeio revisão gramatical, não gosto. Tenho formação em literatura e não em gramática, sou formado em literatura brasileira. Entendo alguma coisa de gramática e até gosto, mas não quero fazer revisão dos meus textos depois de escrevê-los. Então, geralmente termino revisões estruturais e passo para a revisão gramatical. Depois para meus beteiros. Tenho poucos, né… venho conhecendo mais alguns. São pessoas talentosas e de confiança, com tato para criticar, paciência para explicar pra mim o que eles não entenderam, onde está confuso. Mas assim, revisão geralmente faço uma antes do beta e outra depois.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Eu escrevia tudo na mão, hoje em dia escrevo tudo no computador. Pra mim, dá no mesmo. Não tenho dificuldade nenhuma em pegar um lápis e escrever alguma coisa num guardanapo, caso meu celular acabe a bateria. Escrevo no celular, mando e-mail para mim mesmo e gosto do bloco de notas do Windows. Tentei usar aquele Evernote, mas não funcionou muito bem pra mim, não sei por que. Fico mandando mensagem pra mim mesmo no Whatsapp também, às vezes fico horas ali escrevendo no celular, por preguiça de sair do lugar onde estou.

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